Luz e escuridão

Todas as manhãs abro os olhos e tenho a eterna sanha de escolher, há 45 anos - todos os dias - qual animal que habita em mim será alimentado. Se aquele que vive na luz ou o outro, que mora na escuridão. Animais igualmente belos e fortes e, ao mesmo tempo, tão frágeis diante das minhas escolhas matinais. 

Nas vezes em que escolhi o animal das trevas inevitavelmente também transitei por ela. E admito que há algo misterioso e fascinante em se mergulhar na escuridão. Uma espécie de domínio sobre tudo e todos nos apossa e sem querer somos guiados pelo ego e apresentados a todos os flagelos que nesse mundo habitam. A sensação de domínio sobre a própria vida, os pensamentos de suicídio na insanidade das emoções descontroladas, o desânimo, a ira, a vaidade, a competição, o controle, a volúpia e a mais profunda e desesperada tristeza existencial. Sim, ele me leva para lá, onde eu sou rainha. Lá eu sou o fim de todas as coisas que habitam em mim. Eu reino nas trevas da minha alma.

No entanto, quando o animal alimentado foi o que vive na luz eu sempre era invadida pela plena consciência da finitude da vida, da amplitude dos meus atos, da magnitude da criação e pela mais perfeita sensação de pertencimento a algo maior. Há paz e tranquilidade nesse ambiente em que ele me conduz. O tempo tem todo o tempo para ser demorado ou não. Há o entendimento de que tudo é apenas um pouco daquilo que ainda não conseguimos compreender. Ele me encaminha para um reinado, onde sou parte de algo maior. No paraíso que habita em mim vive o lado mais iluminado e resplandecente do meu ser, repleto de flores e aromas, som e cheiro de mar. Faço parte do todo.


Admito que tentei por vezes alimentar ambos igualmente. Senti na pele o fracasso desse ato. Eles não coexistem na mesma força e medida dentro de uma existência. É necessária a escolha de Sofia. É preciso escolher qual animal que vive em nós - o da luz ou o da escuridão - será o mais forte, o mais cuidado, acarinhado e alimentado, pronto para viver todas as nossas batalhas internas e externas, inerentes às nossas escolhas. Entender que é preciso cuidar de um em detrimento do outro não é uma maldade, é um ato de sobrevivência. Somos dois morando em um. Um vivendo em dois. 
 
Daí incorrem todas as nossas insanidades que só fazem crescer à luz do século 21. Psicotrópicos, álcool, cigarro, cocaína, maconha, êxtase, bala, crack, comida em excesso, sexo em excesso, atividade física em excesso, depressão... Ufa! Quanta coisa. E tudo isso é só o reflexo do modo que escolhemos como esses animais devem conviver dentro de nós.

Sempre que um for alimentado você terá que conviver com o olhar de socorro do outro que você tenta matar aos poucos. Nunca alimente os dois de forma igualitária, por mais que isso possa lhe parecer cruel. Lembre-se, se ambos estiverem fortes, quem servirá de refeição será você mesmo.

A propósito: qual animal você alimentou hoje? Já pensou nisso?

Comentários

  1. Já faz um bom tempo que escolho alimentar meu lado luz. E essa escolha tem, que traz consigo uma série de exigências, me ensinado a ser uma pessoa melhor para mim e para os outros. Excelente texto Luzia. Siga fazendo a melhor escolha de luz para sua vida.

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    1. Meu querido, assíduo leitor dos meus suspiros, a luz sempre será a melhor escolha, mas temos que aceitar que a treva coexiste em nós. Fico feliz pela tua escolha e luta diária. Todos os dias nós fazemos o mesmo, seja pela luz ou escuridão. Obrigada pelo carinho de sempre!

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  2. Lindo texto! Parabéns me encantei!!!

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