Eles estão mortos
Quantos vivos você já teve que sepultar em vida? Na sua vida? Nessa existência? Quantos velórios sem um corpo para velar você já esteve? Já sentiu a fúnebre dor de saber que a pessoa está viva entre os demais, menos para você? Alguém cuja energia vibra. Cujo corpo é carne e permanece quente. Mas a pessoa não habita mais na sua existência. Ela morreu! Nossos mortos-vivos nos assombram vivendo. A assombrosa partida de alguém que ainda permanece enlouquece os sentidos. Mas precisamos estar alertas! Eles estão mortos...
Não houve cortejo. Ninguém nos deu os pêsames. Não há caixão, tampouco cinzas. Não há uma data. Não há. O peso dos mortos que enterramos em vida carregam consigo o silêncio das preces não ditas, das lágrimas sem motivo, das insônias, da saudade... Eles estão lá! Respiram, falam, andam, trabalham, vivem e até convivem conosco, mas estão mortos. Partiram sem dizer adeus. Levaram com eles toda a nossa esperança da ressurreição, da vida eterna, da redenção dos mortos... E ninguém viu. Essa dor é só nossa.
Não há amor, só vazio. É desilusão em seu estado mais puro. Decepção na sua forma bruta. Ferida profunda. Ruptura. Chama apagada. Mar imóvel. Sol que não nasce. Flor seca. Mãos vazias. Pranto sem lágrima. Deserto. Esse é o retrato de quem é obrigado a enterrar alguém que um dia já foi tudo. E hoje é nada. A crueldade e morbidez de quem é obrigado a enterrar seus mortos com vida não se compara à amorosidade da despedida fúnebre da carne...

excelente como sempre!!
ResponderExcluir