Tudo acaba porque sequer começa

Abriu as mãos e por entre os dedos correu o líquido morno e denso. Arrumou o cabelo, ajeitou o celular no bolso e lá se foi em busca de mais um encontro com o acaso. A liquidez do tempo e a efemeridade das coisas tornava sua busca algo insano. Tudo que tocava, por mais firme, mais rijo e belo que parecesse, se liquidava de forma assombrosa. Como num encantamento, nada mais era sólido. Seu toque só sentia a sensação da fluidez líquida do agora. Tempos modernos! Chaplin? Não... Bauman. Numa releitura dos tempos de uma humanidade que não soube se reinventar em si mesma.


Quanto tempo de empresa? Mais de dez anos? 
- Acomodada! Vá buscar novos desafios. 
O mesmo namorado há mais de 1 ano? 
Ele deve ter outra, com certeza! 
- Vá se divertir, você ainda é jovem. 
A mesma amiga dos tempos de escola? 
- Não teve capacidade de se reinventar... Deveria procurar uma terapia. 
Você fez planos para o futuro? 
- Você é louca!!! Não existe futuro. Ele dura 24 horas e você já é velha o suficiente para saber disso. 

Ela abre a aba do aplicativo e relembra o novo normal. É verdade. O futuro só tem 24 horas. Não à toa os stories só duram esse tempo no ar. Depois... Bem, depois eles somem. Morrem. Então cabe a ela (e a todo mundo) correr atrás do vazio incessante de seus dias cheios de coisas vazias a fazer para preencher essa lacuna e postar algo novo. Esse espaço cheio de nada segue escorrendo, na liquidez fria das relações frágeis que ela (e todos) não consegue mais estabelecer a longo prazo com mais ninguém.


Tudo acaba porque sequer começa. Peso bruto ou peso líquido? A liquidez dos rendimentos. O gás liquefeito que sai dos pulmões. Nada fazia sentido. Toda a robustez chegava ao fim. Seu bruto coração de músculo, sangue, cicatrizes, amores, rancores, esperança e futuro não passava de um rio correndo em direção ao mar... Cabia agora a ela só saber nadar, para não morrer em meio à abundância líquida que a afogava diariamente, até o fim dos seus dias...



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