Ofereça coca à sua maturidade
A Maturidade é como uma velha senhora que chega de repente na sua sala, se senta e pede biscoitos. Ela não está muito preocupada se você fez a compra de mês, se tem pó para passar um café ou tampouco se sabe fazer tudo isso. Ela apenas exige e pronto. Faça! Dê seu jeito, incompetente...
E lá vai você comprar a última máquina Nespresso na loja mais próxima, sem nem saber direito como usar aquela parafernália que lhe disseram que era a melhor. Um zilhão de cápsulas, uma dívida parcelada no cartão de crédito, uma dezena de dúvidas... Dentre elas, a maior: como vou usar essa joça?
Na corrida de volta, o supermercado lotado. Lá encontra o mais belo pacote de biscoitos importados. Talvez ela deva gostar, afinal Maturidade gosta de coisas refinadas (pensa o espertalhão, cheio de pressa e aflição)... Mas eis que surge o pior, aquilo que pode pôr tudo a perder: o pacote de Pastelina! Sim!!! Símbolo de bairrismo, de paladar infantil, de fraqueza, de gula, de passado...
Já era o momento de retornar para casa e provar que era digno daquilo. Daquela fase. Daquele café com biscoitos. Mas a dúvida, ir ou ficar... Entre levar o biscoito importado e fino ou o relicário da sua infância o paralisava no corredor lotado, às 18 horas de uma sexta. Sim, ele não tinha - nem mais ninguém - tempo a perder. Ninguém tem.
Ela à espera do seu anfitrião. Ele esperando estar à altura da sua visita. Ambos com suas expectativas. E o tempo, aquele coeficiente extrator de sanidade e lucidez, a rir de ambos. O tempo é sempre cruel e justo. O senhor da razão, onisciente e onipresente, a judiar de todos. O tempo todo.
Ele chega aflito. A Maturidade um tanto desconfortável com a espera. Ele serve uma Coca zero, afinal já estava gelada e fácil de abrir. Ela, surpresa, não esperava por isso. Ele oferece ofegante, um tanto juvenil - com traços de quem já viveu o suficiente para saber que ela iria gostar daquilo - um ball com um sortido de biscoitos finos importados e Pastelinas.
Os olhos surpresos e ávidos pelo inusitado percebem o quão é possível se chegar ao patamar do conhecimento sem deixar de lado as nuances da juventude. O frescor do novo sob o olhar enrugado dos quase 50. A palavra de sabedoria por entre os lábios de quem ainda se permite balbuciar a alegria dos jovens.
Mais tarde pediram uma pizza pelo Ifood, sem abrir mão de um bom vinho chileno. Assistiram um filme de Almodóvar no Netflix. Procuraram fazer algumas conexões produtivas no Tinder. Adiantaram alguns relatórios para entregar no dia seguinte e, só então, ela alertou que já estava tarde.
Sim. Amanhã era sábado. Era o dia dele buscar as crianças. Era o dia dele ser pai. Era dia dele ser feliz.
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Lindo como sempre. Perspicaz como de costume. Bela crônica!
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